sábado, 30 de julho de 2011

Tempo Ausente


Neste momento, aguardo a hora de subir ao palco da Coxilha Nativista de Cruz Alta - 31ª edição. Percebendo que a concentração necessária e importantíssima para estar focado no tema que represento ou defendo, como de costume os artistas e o público se referem às interpretações de músicas em palcos, começo pilchando a alma de "tempo ausente", fecho os olhos e deixo que esse sentimento saudosista penetre no subconsciente e me prepare para a luta branca.

Cantar um tempo revestido de memória, frente ao tumulto da música atual, é um desafio diário.

Hora de encilhar, mas antes de montar a cavalo, leio e divido com todos vocês o texto AQUI, escrito por Eron Vaz Mattos no livro de mesmo titulo, para que compreendam melhor a inspiração, o motivo e o tempo do meu canto.

foto Edson Larronda

AQUI

A telha de amianto - venceu as quinchas de santa-fé.
A energia elétrica - matou a lamparina, a vela, o lampião...
O automóvel - a carreta, a aranha, a carroça e o carretão.
O trator dobrou o pescoço do boi e a televisão terminou os bailes, as charlas fogoneiras, as carreiras, as serenatas campeiras, as revisões de potros...
O progresso e o tempo novo mataram os rebanhos e as comparsas de esquila a martelo...
O brete - o rodeio, as marcações porteira afora...
O rádio emudeceu as vitrolas. O caminhão matou o tropeiro.
E o homem? E a mulher? Ah! Esses ainda não; os homens e mulheres deste pago estão como cernes de guajuvira, eretos e firmes como sempre; nas suas almas está guardada a melhor fibra de uma raça crioula que jamais haverá de render-se aos ditames maléficos deste tempo que procura destruir o patrimônio maior da nossa gente que é a honra, a dignidade, o apego ao chão, ao trabalho e a honestidade, pois, sem esses referenciais, nada poderá salvar-se e a humanidade será envolvida pela erosão devastadora dos seus bens maiores e virará pó qual um rancho abandonado onde, com o passar dos anos, ficam apenas os sinais sobre a terra...
A gente do meu rincão sabe arrancar deste solo bendito o seu sustento suado e sofrido, pois já nascemos em meio a dificuldades, em meio a elas vivemos e nos sentimos envelhecer sem que tenhamos alcançado sequer o respeito por parte dos que mandam... Talvez porque sejamos humildes, puros e trabalhadores, ou quem sabe, porque descendemos de famílias dignas e exemplares edificadores da soberania da pátria.
Crescemos tranqueando atrás do arado e conversando com os bois, e por isso, temos o braço, as mãos, a alma e o coração calejados pelo trabalho pacífico, conduta que adquirimos dos nossos anteriores que balizaram rumos para nós e montaram a cavalo para defender e tornar brasileiro o chão onde pisamos e que guarda as suas cinzas.
O nosso lugar é aqui, cheirando o campo e podendo vislumbrar em cada amanhecer a paz da querência e ouvir em cada canto de sabiá ou grito de quero-quero a voz dos nossos pais dizendo que este pago nos pertence e, apenas aqui, é podemos sentir o cheiro de suas flores, a voz dos tropeiros e a palavra de Deus. Somos os continuadores dos sonhos daqueles que nos antecederam e deixaram, para nós, um pedaço de chão, um rumo a seguir, os conselhos e um enorme paiol cheio de amor e lembranças no coração.
Somente aqui se pode ouvir o silêncio, ver o sereno deitado no pasto, emponchar-se de lua e conversar com as estrelas. Apenas aqui se pode, ainda, ver as lichiguanas beijando as flores do jasmineiro do oitão, as nuvens deitarem mansas no catre azul das lagoas e a orfandade dos guaxos confundir o bico de couro cru com o úbere farto e quente das mães que morreram.
Aqui, a sombra dos cinamomos é muito mais que uma sombra; é o lugar onde comungam os mansos e xucros remoendo tranqüilos, nos sóis dos verões, a seiva dos campos e onde as espécies se igualam celebrando a vida ao redor das casas.
Apenas aqui o andante descobre o valor de um “Oh de casa” quando, sovado de corredores, bate palmas de esperanças na frente de um parapeito e as portas se abrem para ouvir os seus relatos colhidos nas estradas, pousos e bolichos... A cacimba, guardada na pipa, refresca-lhe o rosto e o lombo do pingo suado.
Aqui se conhece a volta certa dos cambões das porteiras e se entende de laços, arames e tranças, de potros e domas, de conjuntas e jugos, arados e enxadas, galeotas e mariposas, de tiradeiras e machados...
Quando o vento verga a palidez dos macegais, soprando lado norte, a chuva se avizinha e os ponchos se abrem cobrindo a garupa dos pingos de lei.
A macela floresce enfeitando o outono e vira remédio no calor da cambona e no sabor do mate. Aqui, a cordeona tem dolência de recuerdos e a guitarra tem som de pátria e querência; os galos acordam as madrugadas e o cheiro dos campos vem dormir dentro de casa.
Somente aqui os quero-queros rondam a imensidão e a estrela d´alva vem nos olhar na janela; os pirilampos ainda acendem os seus candeeiros pontilhando as noites de estrelas sobre as várzeas e os cardeais, sem gaiolas, vêm cantar nos galhos das laranjeiras...
Aqui, as mangueiras encerram os tombos dos pealos e os comandos de “forma cavalo”; os berros das vacas mansas timbram a alma da querência com refrãos enluarados de madrugadas.
As vitrolas, mesmo ancoradas na mudez antiga, contam histórias musicadas de silêncios.
Sob o teto dos galpões, as corruíras fazem ninhos nas cambonas velhas e as corujas ainda pousam nos moerões das porteiras.
Aqui os pés de arruda ainda absorvem a inveja e o mau olhado e as mulheres ainda fazem pão com torresmo; ainda se tira o chapéu para cumprimentar a todos e, aos mais velhos, chamamos senhor.
Nas fundas estradas dobradas sobre as coxilhas cruza a paciência ruminante dos mansos e os araçás buscam, sozinhos, compreender a terra afundando as raízes.
Aqui, as corticeiras mudam a cor dos banhados e abrem o dorso para abrigar a doçura das colméias; as madressilvas abraçam as copas altas dos vimais e embalam o mimetismo das jaguatiricas.
Os retratos, presos às paredes rudes, testemunham o tempo nas molduras ovais empalidecendo o que restou dos ancestrais.
As sombras valorizam os sóis e o outono despe, da folhagem, a majestade dos umbus.
Ainda se faz doces nos tachos e se benze tormentas e outros males e se lava o rosto no lavatório com jarro, bacia e saboneteira alouçadas.
Aqui, ainda se come o milho verde assado sobre as brasas e a batata-doce no forno do fogão. As mulheres ainda usam sombrinhas, lenços, na cabeça, para a lida e ainda bordam panos, aventais, toalhas, babeiros e guardanapos.
Aqui, ainda estão pelos galpões, os caules das caneleiras-pretas que se fizeram pilões para o milho crioulo virar cangica, o catete tornar-se farinha e gamelas para temperar as lingüiças e salgar o toucinho...
As chaminés dos fogões a lenha ainda fumegam pelas madrugadas e, ainda, se pode ouvir a cantiga das sangas claras, os berros dos touros e as cantorias dos grilos. As babas-de-boi tremulam nos caraguatás hasteando, em mastros de espinhos, os rumos dos ventos.
As nostalgias da campanha encontram amparo nas cruzes sozinhas quando debruçam as sombras de braços abertos sobre a teimosia dos pajonais e, por essas imagens, é que as saudades ganham a estatura dos cerros.
As lagoas são tão lindas que a inveja das coxilhas não lhes permite alcançar os arroios.
Aqui, ainda preservamos o cunho inconfundível da raça campeira; o que a maioria das pessoas já perdeu, nós guardamos com orgulho porque temos origem, história e a verdade iluminada em cada retina.
Os nossos velhos, se já não podem galopear um potro, segurar o rabo de um arado ou borcar uma mariposa, nos dão o que há de mais precioso na vida que é o gesto, o conselho e a experiência através das palavras sábias e amigas.
Aqui, ainda podemos ouvir, nas tardes quietas de outono, a batida do machado no picador da lenheira e o choro inocente de uma ninhada de ovelheiros num canto de galpão; o biguá mergulhando nas águas tranqüilas do açude e as traíras chocas mostrando o lombo para o sol.
Apenas aqui ainda se ouve, nas tardes nubladas e quentes, o tuco-tuco justificando o seu nome e as calhandras ainda encontram varais com charque para temperar o assovio.
Nas noites mornas ainda se ouve a saparia afiando o canto nas chairas dos juncais; as esporas ainda riscam o chão dos galpões e as botas têm o couro queimado pelo suor dos cavalos...
O balde do poço ainda faz gemer a roldana e tem uma ferradura ao lado da alça para encher mais depressa; a água cristalina não é insípida porque a talha-de-barro empresta-lhe um sabor acre-doce de história, tempo e saudade.
Aqui, ainda podemos presenciar as roupas simples, com remendos multicores, estendidas num coarador sobre um lageado de sanga.
Aqui, a pressa ainda não chegou; as pitangas e os guabijus temperam a canha e nutrem as gargalhadas matinais dos jacus. A infância prepara amanhãs entretida com gados-de-ossos, lombos de petiços, boleadeiras de sabugo...
Aqui, repartimos a dor em silêncio porque a alma, quando está ferida, substitui as palavras pelo idioma do coração.
Aqui, os cavalos, mais que nobres animais parceiros de árduas lidas, são quase irmãos ou mais.
Aqui, ainda podemos ver a cerração pingando dos galhos das coronilhas embarrando os passos das vacas mansas que, a cada amanhecer, vêm açoitar os seus filhos num lambido reencontro com sussurros de ternura. As taperas nos fazem chorar o coração, pois são testemunhas tristes de que alguém partiu para outro plano, cambiou de pago ou o que é pior; trocou o lombo do cavalo, a vida crioula e livre em meio à natureza; deixando, para trás, a chave de aramador, o laço, as garras de domar, para viver entre os desgarrados e tristes num arrabalde indigno, sujo e violento de uma cidade qualquer...
Aqui, a sabedoria secular ensinou que, fazendo uma cruz com carvão nos ovos de galinhas para chocar, os trovões não conseguem gorar e a vida se encarrega de “descascar” as ninhadas e espalhar infâncias de veludo nos terreiros bem varridos.
O nosso lugar é aqui porque temos, ainda, a perícia de manejar o laço e calçar o pé sustentando o tirão de um pealo de toda a trança, só na presilha.
Temos história e uma luta na qual estamos empenhados desde que nascemos; por isso, o nosso lugar é aqui onde podemos, ainda, estender a vista e enxergar a distância escondida no horizonte, pintado de campo e céu, onde Deus atou, à soga, os nossos sonhos de campeiros.
Aqui, a estrela Boieira e o Cruzeiro do Sul ainda nos servem de guias no escuro das noites e as picadas, nos matos, têm algo de mistério e assombração e nos fazem desapresilhar o coldre e encurtar as rédeas do flete.
Fomos batizamos com um galho de arruda e água benta colhida das chuvas.
Aqui, os cachorros são mais amigos e nos entendem na dor e na alegria...
Aqui, o campo ganha mais essência quando morre um cavalo e, na alma gaúcha, se aninha uma ausência dorida porque até o horizonte se muda para mais distante das casas.
Às vezes, o céu pinga pelas goteiras dos nossos tetos, apagando as estrelas, mas acende, em cada um, a sabedoria e a esperança.
Em cada fruto que amadurece está o pão que é a seiva da terra...
Aqui, a felicidade não tem anéis nos dedos e nem diplomas nas paredes, mas têm-se olhos na alma capazes de interpretar as parábolas da natureza porque sabemos que os cantos matinais dos sabiás e bem-te-vis são, na verdade, UM DIÁLOGO COM DEUS.
                                                                                       

                                                                  Eron Vaz Mattos
                                  Olhos D´água, inverno 1999.

sábado, 23 de julho de 2011

Apreciem o artista perdoem o ser humano.





















foto Miza Limões



Caros Seguidores do Diário Do Andante, com a permissão devida, neste momento bebo um trago de vinho que me ofertou o amigo e gaiteiro (assim prefere ser chamado) Ricardo Comasseto, e comemoro, junto a ele e a Luciano Fagundes, o término das gravações do Cd Canto Ancestral, meu 4° registro em áudio. 
Desde julho de 2010 este trabalho vem sendo idealizado e captado no estúdio Atelier do som em Pelotas-RS ao qual aproveito a citação para agradecer a evoluída amizade com o Guilherme Cerom proprietário e técnico do estúdio, que até então só o conhecia de cruzadas pelos cenários musicais do Rio Grande Sulino.
Os goles de vinho servem para acalmar o corpo embora as leis, na maioria das vezes, condenem o ato indevido de acompanharmos, é claro que demasiadamente, nossas vidas com álcool. "Pero soy del camino y el camino sin vino és amargo”; mas isso é uma outra história.
 Venho mesmo é saludar os muitos dias que me fizeram pensar, durante as gravações, nas situações tumultuadas da vida pessoal em que sempre estive envolvido durante os períodos de produção de meus discos, e desta vez não foi diferente.
Mais um trago e chegam até minha memória as lágrimas da vitória... Saúde, dinheiro, amizades e amores, fatores esses importantíssimos que corriam o risco de afetarem direta e indiretamente o resultado final de uma gravação.
Quando escuto uma canção do À Moda Antiga (2001) obviamente me chega à lembrança o cheiro, daquela época imatura, ou melhor, inocente, onde o guri corajoso metia o cavalo e dava a cara, ou ainda, a voz aos tapas da crítica implacável e certamente, por crítica, exigente.
Em 2003, meses antes de lançar o Querência e Caminho, dava adeus fisicamente a minha base, o anjo que nesta vida apelidaram de Mãe. E subia ao palco do Clube Caixeiral em Bagé com a coragem triplicada, pois sempre os problemas "previstos" me servem de catapulta moral e, perder, deve ser previsto, penso eu, mas a conquista deverá ser sempre considerada como algo a ser comemorado como imprevisto.
No lançamento do Razões de Ser (2005) despedia- me, sem tempo, de recuperar o estágio melhor de filho e, meu pai, acenava-me da infância onde comemorei seus gols como o mais fiel torcedor. Perdoa-me amigo, às vezes arrependo-me de ter crescido, pelo simples fato de identificar teus erros humanos e compará-los aos meus que hoje te perdoam e te colocam no pedestal do pai que amo e sinto saudade.
2006, vago na esperança de ser normal... Impossível.
Nasce então do colo da vida, uma pétala chamada Maria Rita. Sua força, iludindo meu rumo, inundou-me de esperança de construir um parador junto à guerreira eleita e admirável, sua mãe Lessana de Moura Gonçalves, a quem dedico este disco, por pensar ser o melhor de mim, ofereço a ela que suportou por sete anos o pior lado do artista.      Obrigado, amiga Lê.
            “A vitória é uma derrota aos olhos de quem perde.”
Que a força que tens, entre curvas e espinhos, seja redobrada para os fardos pesados que teimamos e conseguimos carregar!   Pela alma de Deus...

Obrigado pela compreensão da ausência minha querida Irmã Lisiane.

Cinco anos de composição reforçando a autoestima, mais que necessária para o registro, fomos absorvendo dos silêncios disponíveis a musicalidade que jorrava dos poros criativos de nossa família musical.
Guilherme Collares, Cristian Camargo, Silvério Barcellos, Juliano Gomez, Luciano Fagundes, Fabiano Torres, Ricardo Comasseto, Marcelo Oliveira, Adriano Silva Alves, Aloísio Rockembach, Fabiano Harden, Henri Camargo, Eron Vaz Mattos, Sérgio Carvalho Pereira, Hugo Pêgas, Joca Martins, Negrinho Martins,  Luiz Marenco, Santiago Soares de Lima, Patrício Etchegoyen, Gustavo Cabreira, Cesar Cattani, Eliezer Tadeu Dias de Souza e os amigos Caco Azambuja, Daniel Martins, Tiago Lopes, Luciano Jardim, Luiz Carlos Nunes Junior e João Salgueiro que fizeram significativa amadrinhada nos critérios: criação, avaliação, amadurecimento e registro. Até que eu selecionasse o repertório desta coletânea intitulada Canto Ancestral 1° Volume, que imagino esteja pronta dentro da minha capacidade atual.
Acaba o vinho e fica na divagação deste texto, a certeza de uma caminhada infinita que passará sempre pela turbulência existencial... E talvez chegue à imortalidade que o tempo oferece aos que acreditam em si. Registram-se nas páginas do tempo agradecendo a existência como a que agradeço neste instante onde fecho os olhos e aqui em Pelotas-RS, uma hora e quarenta e quatro minutos do dia 22 de julho de 2011, e imagino-me erguendo o João Antonio, filho que nasceu junto a esta história, para agradecer meus passos firmes e pedir perdão aos que não fizeram jus ao meu nome, orgulhosamente marcado na arte do meu chão.

Porque meu canto é triste e tem missão guerreira
de sentar basteira e levantar trincheiras por onde andejar...
Meu canto é triste como é triste o homem que ainda vai ter fome sem saber rezar.


Apreciem o artista perdoem o ser humano.






domingo, 17 de julho de 2011

Reencontro




Maravilhosa a sensação de encontrar...  Essa de perceber que as pessoas estão todas bem próximas e num determinado momento, promovido pelo destino, somos colocados frente a frente. O abraço finalmente chega, a troca de emoções e absorção da mesma afloram no convívio de algumas horas ou de minutos apenas.
Estive na Charqueada Santa Rita (Pelotas-RS), talvez por coincidência, a santa que minha mãe  devotou e que veio a complementar o nome da minha pequena Maria Rita, companheira importantíssima nessa passagem por  lá onde emocionalmente estive acompanhando e participando do trabalho de gravações do Cd e DVD do amigo Joca Martins.
Posso chamá-lo confortavelmente de amigo, pois a vida nos proporcionou um encontro antigo e um reencontro próximo, regado pela maravilhosa sensação que motiva este texto.
Exatamente neste momento em que digito, o fundo musical é O Sábio Do Mate, poema de Rodrigo Bauer, poeticamente musicado por Joca. A sensação indescritível que essa música causou em todos durante sua captação, com arranjos de seu irmão João Marcos “negrinho” e suavemente nos dedos de Celau Moreira (violão Celo), nos confirma a posição da música na alma da vestimenta material.
Maria Rita e eu adormecemos, enquanto Joca e Juliana Spanevello, de forma lírica, colocavam as vozes na madrugada que os adornava, feito um complemento de romance que revitalizou ainda mais a charqueada, porque o amor também faz parte de sua restauração e conservação.  
A charqueada Santa Rita e sua força histórica: dores escravas e suores que regaram junto às lágrimas misturando-se à sangria dos animais que doaram a carne para o alimento, e anônimos, estenderam-se nos varais da memória para que o Rio Grande do Sul erguesse seu patrimônio social em matéria ou lembrança.
         Provavelmente é esse o principal motivo do reencontro entre nós, músicos ou não, neste ambiente proporcionado pelo tempo de reencontro consigo, deste privilegiado cantor que eu vi caminhar firme e, algumas vezes, por ser humano, também confuso, e literalmente recicla hoje sua caminhada de 25 anos de arte, redescobrindo poemas perdidos das melodias e melodias perdidas dos poetas, que após escorrerem dos dedos de seus autores, foram levadas por ele ao encontro com o aplauso dos tantos cenários que aguardaram seu canto vigoroso. Reencontro do eleito com sua leitura e releitura da vida.

Obrigado Joca Martins, meu amigo.

                                                                                        

 13 de julho de 2011.


segunda-feira, 11 de julho de 2011

Uma prece ao canto livre
















Durante duas apresentações neste final de semana, nas cidades de Carazinho e Bagé, se fez nítida a importância da inclusão no repertório da música Canto dos Livres do importantíssimo missioneiro Cenair Maicá. Algo que apenas minha sensação sobre o palco e frente ao público pode explicar e certamente não em palavras.
Procurando algo para essa semana, encontrei arquivado este texto a seguir, escrito em outubro do ano passado. Texto que realmente me aproxima da purificação que busco para representar também o canto dos livres.


Uma prece ao canto livre

Purifiquei-me momentaneamente e ajoelhado aos pés do campo, andei mais perto do valor da terra...   O banhadal cantava um canto livre, por saber rezar a prece natural do criador...

Escutei-me... e ouvi que estava longe da sabedoria índia que queria ter... Senti o cheiro de outras terras num poncho vermelho que me defendia do sereno.

Era moreno o calor da noite na alma do cantor pagão, e necessário adormecer rezando no ritual das folhas e aves noturnas.

Ouvi no potrerito que apelidei de campo dos ventos, o som dos cascos desprendendo-se do barro quando a manada caminhava entre os caraguatás. Vigiada pelo pastor eleito e destemido que, também de outras terras, descendia heroico e sobrevivente por estar inteiro, enchendo ventres e entregando aos homens suas virtudes mistas em mestiças mães que criarão seus filhos e estarão de novo - em natureza eterna - de amar sem troca, de gerar sem perda e de criar sem volta os crioulos filhos da escuridão equestre.
   
Purifiquei-me Estrela D’alva... Percebi a cruz no clarão do teu olhar quando rezei no campo em Canto Livre...  por destinar-me ao canto e a não chorar! Mas choro... e a vida, em claves de pranto, é um sonho COM MATIZES SONOROS.

(NO CANTAR DE QUEM É LIVRE "HAY" MELODIAS DE PAZ)

E uma prece em vento escuro – noturno – o gosto da luz!

Lisandro Amaral
04 de outubro de 2011.

(Trechos em maiúsculo da música Canto dos Livres de Cenair Maicá)

                                                                 

quarta-feira, 6 de julho de 2011

domingo, 3 de julho de 2011

A TERRA ASSINALA SEUS ELEGIDOS



 
"Sí, la tierra señala a sus elegidos”
                                    (Atahualpa Yupanqui)





Refletindo diariamente os passos do universo criado ao redor e no interior da música nativa, ou seja, quando digo nativa, nascida neste pedaço sul de mundo ao qual pertenço e onde me encontro muitas vezes em debate, com artistas que atuam, também, no mesmo cenário e que realmente possuem um valor significativo dentro do contexto, percebo que as preocupações são as mesmas, guardadas as proporções do foco de cada um.
Durante mais uma edição da Sapecada da Canção de Lages- SC, ficamos hospedados no importante templo de reverência ao tropeirismo brasileiro; refiro-me a popular e hospitaleira Fazenda do Barreiro, do carismático Tio Lélo, hoje um emblema colado sobre o peito daquele maravilhoso e abençoado lugar. Numa guitarreada, em formato de conferência galponeira, conversamos muito sobre rumos e detalhes mais importantes referentes ao mundo artístico ao qual frequentamos e, obviamente, assumimos parte das consequências, sendo elas positivas ou não.      
Tomados pelo efeito emocionante do repertório, que era escolhido por cada um que da memória tirava, como uma lebre do sombreiro, foram surgindo: uma canção importante, um poema sensível, um conto reflexivo, um causo galponeiro e na maioria cômico, ou, apenas um comentário admirável de um participante que se manifestava apenas com o dom de ouvir e sentia-se a vontade para deixar sua impressão.
Fomos madrugada adentro, até chegarmos à conclusão de que, historicamente, a presença da arte musicada nos galpões, independe de resultados dos Concursos poético/musicais que atuamos, e sim, de terem marcado na memória de seus repetidores, que assimilando seu conteúdo - introspectivo ou não - seguem pelos palcos montados à beira dos fogões e ecoando o hino nativista, no real sentido de amor ao canto da terra.
Eram tantos os artistas do cenário gauchesco que ofereceram aos ouvidos da alma da madrugada sua arte, em troca apenas do calor que lhes devolvia a sensação de sentirem-se, ali, dignos tropeiros da poesia regional do sul do Brasil.
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Canto terra, pampa e rio com a campeira vivência
de filho desta querência feita a casco de cavalo
Donde os buenos e os malos vaqueanos de muitas guerras
Banharam campos e serras, no sangue de mil combates
Sem saber que nesse embate foi puro amor pela terra.

São passados que me orgulho de cantar com a alma aberta
E hão de ser rimas bem certas e as cordas bem afinadas
E a garganta bem afiada e os acordes bem certeiros
Que assim qualquer brasileiro ou se escuta algum paisano
Verá que é sul americano o canto de um missioneiro.

Verão que as raças se uniram num potencial varonil
Pra levantar o Brasil: índios, gringos e mestiços
E sem medir os sacrifícios, sem sede e sem sentir sono
Como se a terra seu trono, lutando com força e fé
Igual que gritou Sepé: - A nossa terra tem dono!

Evoco ao santo cacique, o imortal Tiaraju
Que deu pra esse Xirú a sublime inspiração
De lutar por esse chão no mais sério patriotismo
Da lança para o lirismo, da tradição ao presente
Da incertidão ao consciente pra o puro brasileirismo.

E se não entendem meu canto neste País muito grande
Hei de cantar o Rio Grande, pedaço de continente
E se cantar o que a alma sente é falta pra um pecador
O patrão Nosso Senhor que perdoe esse gaudério:
Vou levar pro cemitério este destino de cantor!


Estiveram conosco os espíritos fogoneiros de tantos outros que habitaram a terra material antes destes versos do Bugre Noel Guarany.  Estes que alumbraram noites, quando o objetivo real de comunhão entre cantadores era muito mais elevado e desinteressado pelo retorno, na maioria das vezes, equivocado do artista atual.
Sobreviveremos à falta de recursos para uma qualidade de vida que nos possa trazer o conforto, quando compreendermos que, provavelmente nossos corpos não nasceram, desta vez, para o colchão de plumas, mas sim, para o pelego estendido no colo da noite que nos ouve e nos convida...


Lembrei-me de uns versos:

Que dos palcos saiam cantos
Que entrem pelos galpões
Trazendo alento e consciência
Pra campeiros e patrões
Entrem nas rodas de mate
Pelas charlas dos fogões.
                       (Canto de Apelo de Eron Vaz Mattos)

O meu Cantar galponeiro
Traz a marca da querência
E a prova de uma existência
Cevada no mate amargo
E quem aceita o encargo
De campeiro cantador
Sabe que é fiador
Da memória do seu pago.
                        (Cantar Galponeiro de Oacy Rosenhaim)

            Que, eu e meus companheiros, possamos ter oportunidades de refletirmos sempre a caminhada na estrada turva da sobrevivência agarrada ao canto “Del viento" e da terra. Que sigam os poemas místicos e altamente evoluídos feito um dos recitados na aura da noite, que dizia:

Eu sou a maior pergunta... sou semente que chegou no tempo... alimento um elo cíclico telúrico da raça... RAÇADOR, sou prosseguimento de meus avós, para que meus filhos sejam entre mim e meus netos... [...]

E vagando na querência... assinou Glênio Portela Fagundes, no poema Cismando, que temos a obrigação eterna de repetir nos momentos elevados de semeadura e colheita.
              
Registrei, no meu diário de andante, que andará muito mais além de si, para memorizar momentos  importantes e repassá-los,  aqui, aos que necessitam saber que o ideal do artista nativo de um pedaço de mundo como este que existe em nós, encontra-se algumas vezes e reflete ao pé do fogo o Destino Del Canto.

Nada resulta superior al destino del canto.

Ninguna fuerza abatirá tus sueños,
porque ellos se nutren con su propia luz.
Se alimentan de su propia pasión.
Renacen cada día, para ser.


Sí, la tierra señala a sus elegidos.

El alma de la tierra, como una sombra, sigue a los seres
indicados para traducirla en la esperanza, en la pena,
en la soledad.

Si tú eres el elegido, si has sentido el reclamo de la tierra,
si comprendes su sombra, te espera una tremenda responsabilidad.


Puede perseguirte la adversidad, aquejarte el mal físico,
empobrecerte el medio, desconocerte el mundo,
pueden burlarse y negarte los otros,
pero es inútil, nada apagará la lumbre de tu antorcha,
porque no es sólo tuya.
Es de la tierra, que te ha señalado.
Y te ha señalado para tu sacrificio, no para tu vanidad.

La luz que alumbra el corazón del artista
es una lámpara milagrosa que el pueblo usa
para encontrar la belleza en el camino,
la soledad, el miedo, el amor y la muerte.

Si tú no crees en tu pueblo, si no amas, ni esperas,
ni sufres, ni gozas con tu pueblo,
no alcanzarás a traducirlo nunca.

Escribirás, acaso, tu drama de hombre huraño,
solo sin soledad...

Cantarás tu extravío lejos de la grey, pero tu grito
será un grito solamente tuyo, que nadie podrá ya entender.

Sí, la tierra señala a sus elegidos.
Y al llegar el final, tendrán su premio, nadie los nombrará,
serán lo "anónimo",

Pero ninguna tumba guardará su canto...


              atahualpa yupanqui (Destino Del Canto)













Aconselho, do mesmo autor o Livro "El Canto Del Viento"